CONTOS

As Paiadas
 
         O mês de maio enchia o paiol. Jacá cheio de espigas sortudas, robustas e com bons grãos granados. Os restolhos seriam ensacados separadamente, para servir o gado nos cochos. Tempo de fartura. Paiol cheio era sinal de bons invernos, terreiros cheios de galinhas, chiqueiros com boas porcadas. O milho, grão sagrado, estava seco na paiada.
            A paiada acolhia com bênção, os grãos de milho na terra. No meio do milharal o pai plantava melancia, abóboras, feijão miúdo e girassol. As sementes não se negavam. Não tinha o porquê de serem disputadas. Todas eram para a terra. Paiada de terra fértil e boas colheitas.
Os pés de milho davam abrigo às ramas do feijão miúdo. A gente colhia suas favas com alegria, colocadas na peneira de taquara, debulhava os grãos para a janta. Até parecia um ritual; chão, semente, plantio, colheita e fartura. O pai ensinava como manter a terra fértil, bendita e agradecida pela boa colheita. Falava que o Vô Zalino (o bisavô Izalino) havia ensinado a cuidar da terra daquele jeito.
Quando os girassóis começavam a florir, o amarelo tomava conta da plantação. A gente achava tudo belo, cheio de magia e, ficávamos observando o movimento que o sol fazia para conduzir a bela flor. O girassol girava. Buscava o sol. O sol se punha e o girassol descansava pro outro dia fazer tudo novamente. Depois de um tempo tínhamos sementes e o pai alimentava os passarinhos.
O mês de maio era o tempo da quebra do milho. Aos montes íamos ajudar o pai a fazer a colheita. A gente não entendia e nem compreendia muito o quanto Deus era bom com a terra e com o homem do campo. A fartura era para alegrar o paiol e todas as criações seriam agraciadas com tanto bem. 
Depois que a gente quebrava o milharal e formavam aqueles montes, tudo era alegria. Limpeza do paiol. Preparação dos balaios. Tinha que ter ajuda de todos. O carro de boi do Vô Orestes já estava reservado pro Zé. Boiada grande. Carro de boi grande. Recordo de alguns bois da tropa: Castelo, Rio Preto, Ligeiro, Retinto, Moreno, Barroso, Peixinho, Damasco, Craveiro... Damasco e Retinto eram os bois de guia. Boiada forte, que ligeiramente fazia o carro cantar.
A paiada era perto. Mas pra fazer o caminho da boiada, a estrada ficava longa. Carro cheio cantava mais alto. Assim, as grotas ecoavam o canto choroso das rodas do carro de boi. Chegávamos em casa, despejávamos o milho no terreiro para encher o paiol. Em casa, todos ajudavam. Não tinha exceção. Tinha força da família e a proteção do céu.
Paiada nossa de cada de dia. Dias de outrora... Saudade sagrada que o tempo não levou. Tem marcas no peito. Levou tanta coisa sagrada. Mas, deixou o mais sagrado do sagrado - o amor. A paiada está lá. O plantio não mais. A gente não perdeu o sonho e nem o cheiro do outono. Não perdeu o brilho da família e nem a boa recordação.
Hoje, a gente guarda a boa semente, deixa a estação passar e planta a terra. Não planta o passado. Planta o presente com o valor de ontem e a esperança de amanhã. As paiadas se multiplicaram... Foram para outras terras... Outros cantos... Outros céus... As paiadas continuam germinando os girassóis e produzindo o feijão miúdo entrelaçado às cordas, costurando o milharal. 

(Conto publicado, em Memórias & Passagens de um tempo) pp 50-51, 2015)
Crisjoli Fingal





Faisqueira

O entardecer vem chegando e nos altos das montanhas vê-se o colorido dos raios solares mesclados com o vermelho-abóbora e que, cansadamente se despede, após um longo dia de muito calor. No alto da montanha, ao norte, a bela imagem do Cristo Redentor que abençoa o entardecer dizendo adeus ao sol e desejando um bom descanso para todos os pousoalegrenses que retornam pra casa, após um dia de labuta. 

Próximo à primeira curva da Antônio Scodeller, aproximadamente uns 300 metros, está a “Cerâmica Pouso Alegre”, que com a sua sirene misteriosa anuncia que o expediente vespertino está encerrado. Todos os dias, ela – sirene – anuncia o bom-dia e a boa-tarde aos moradores do bairro São Francisco. Este ritual histórico, felizmente, não foi sufocado pelo tempo, que com a chegada da modernidade foi desvalorizando os aspectos tradicionais do povo. Alguns meses atrás tinham uma fileira de ciprestes, mas ela se foi... 

As garças, por sua vez, de volta pra casa fazem o belo vôo da tarde, em grandes ou pequenos bandos, em forma de “V”. Vem voando fazendo valer a poesia que valorizar o vento. Elas vêm retornando no fim do dia. O vôo se perde no firmamento, e vai se misturando com o branco das nuvens até sumir no meio do verde das matas, que circundam o Rio Sapucaí. 

No sincronizado bater das asas elas enchem os olhos dos homens e das crianças com um espetáculo que nunca se repete. Cada dia é um balé original. O coração do poeta não deixa de enxergar que aquela volta pra casa é mais uma “vitória” do longo dia, ou até o gesto nobre da “vida”. 

Quem mora na região da Faisqueira deve se sentir privilegiado pela magia do local, mesmo que o tempo e o crescimento populacional tenham levado os sinais e a cultura dos imigrantes italianos, o mundo por aqui, às vezes parece que não correu. Tudo tem uma rotina, uma construção simbólica que preenche o entardecer das famílias. 

A vida por aqui é recheada de história e simplicidade. É marcante a sabedoria que o seu Zito nos deixou, um legado de humildade; o aconchego da casa da dona Helena que, embaixo do jabuticabal, acende o seu forno de barro para assar os deliciosos biscoitos de polvilho. 

Como se esquecer da simplicidade da dona Hortência, senhora de oração e fé. Não deixava de contar as histórias das ruas terras e do tempo em que não existia energia elétrica. 

Como esquecer os rostos destas pessoas que guardam a história do povo mineiro? Seu Acrísio que deixou saudades... foi o meu vizinho. Sempre alegre, gostava de brincar com as garças nos fins das tardes. Quando elas vinham em vôo rasante, ele batia as mãos e, no susto, elas se desequilibravam do balé sincronizado. Era até engraçado ver aquela cena! 

O tempo como uma faísca levou seu Zito, Dona Hortência e o Sô Acrísio. Foi assim que os conheci. Que bom foi ter sido acolhido por eles aqui na Faisqueira. 

Mas não acabou... Ao fim do dia, homens e mulheres vão retornando na companhia das garças, após um grande dia de trabalho. As crianças ainda se divertem nas ruas estreitas, pelos becos... Brincam de bolas, cordas, sorriem. A vida acontece lentamente! 

As batidas dos sinos no Mosteiro São Bento anunciam que a noite se achega: são seis horas da tarde! Os monges começam a cantar os salmos. São as vésperas salmodiando o louvor. Com cantos e orações, eles agradecem ao Bom Jesus por mais um dia de existência. 

Voltando para o norte, o Cristo vai ganhando a iluminação noturna para dizer a todos que Ele está lá bem no alto abençoando o sono do povo de Pouso Alegre. 

O lugar onde eu moro é uma magia que o tempo não destruiu. O bairro Faisqueira é uma terra de gente de fé, simples, humilde e trabalhadora. Aqui a semente que germinou veio de longe. Muitas partiram de volta para o lugar de onde vieram, assim como no balé das garças. Outras, vão se germinando por aqui mesmo. 

Eu vou ficando nesta terra, deixando a vida acontecer, até que eu volte para a semente de onde vim junto com o dançar das garças...


O Violeiro


            Juca da Serra era um senhor misterioso que morava nos recantos do sul das Minas Gerais, em meio à floresta. Ele tinha mais ou menos uns 80 anos de idade e vivia somente com a companhia da natureza. Desde garoto descobrira a arte de dedilhar a viola. Diariamente, ao entardecer, sentava-se ao pé de um Jequitibá, em frente à varanda de sua tapera, e deixava sua comadre – a viola  - cantar e chorar saudades dos tempos de sua infância, quando seu pai, ao redor da fogão à lenha, tocava as modas de viola. Seus vizinhos, a mata, os bichos, o verde, a cachoeira, os pássaros e até as flores silenciavam para ouvir a viola tocar.
            Um dia o velho Juca adoeceu! Sem o som da viola e da cantoria, a mata escureceu. As flores começaram a murchar, as cachoeiras choravam pelas suas imensas cascatas, os bichos se intimidaram: não brincavam e nem faziam suas estripulias. Enquanto isso, os pássaros rodeavam a velha tapera para ouvir a comadre cantar. E nada! Tudo estava numa imensa solidão. Em meio àquela angústia e tristeza, o tempo foi parando. Parecia que era o fim. Nenhum sinal de alegria era notado ao redor da mata. Horas e dias só ouviam o silêncio.
Sem o som da viola, a vida foi definhando aos poucos. Os dias foram se passando e nada do seu Juca melhorar.
Numa bela tarde um sabiá começou a cantar tristemente. Sua melodia, solitária e vazia, foi acompanhada por outros pássaros. De repente todos os pássaros começaram a melodiar. Cantavam como uma orquestra sinfônica. O peito cheio parecia que ia estourar. Aquela melodia brotava do fundo do silêncio de vários dias sem festa. Como magia, a viola soltou notas musicais, sozinha. Seus sons eram vibrantes.
Aos poucos as flores começaram a despertar daquele ato sonolento. Exalavam um perfume adocicado que a quilômetros de distância atraiu abelhas e beija-flores. Alguns raios de luzes surgiram entre os galhos das árvores e o som das águas ia orquestrando o canto dos pássaros. Seu Juca foi recompondo suas forças. Começou a melhorar de sua enfermidade, pegou a viola, que ainda tocava sozinha, abriu a janela da velha tapera e percebeu que a melodia da natureza rodeava o seu rancho. Dirigiu-se até a porta e sentou-se embaixo do pé de Jequitibá.
            Com a viola no peito, o violeiro dedilhou notas que jamais foram tocadas nos palcos da Terra. Sua música quebrava os limites daquela floresta. Animas e feras dos campos foram se aglomerando em volta da tapera. Um grupo de panapanã dançava suavemente sobre as copas dos girassóis. As coisas voltaram a acontecer naturalmente. Seu Juca ficou curado e viveu por mais 25 anos. Meu avô contava que o enterro do seu Juca foi feito pelos bichos da floresta. Ninguém teve coragem de ir à tapera, mas dizem as lendas, que todos os dias alguém abre as janelas e os animais ficam brincando em volta dela.
            Conta-se, ainda, que ao entardecer, debaixo de um pé de Jequitibá a gente pode ouvir o toque de uma viola. Dizem pra “bandas” de cá que é a comadre do Juca que nunca deixou de soar suas belas canções.  

Crisjoli Fingal





O SORRISO DE IVONE


       Ainda o sol não despertara Otávio já estava de pé. Abriu a janela de seu quarto. Era uma manhã muito linda. O céu apresentava um forte azul. Ao som de uma orquestra, os pássaros, entoam no alto da mangueira, a melodia: “alvorecer da minha terra”. Eram pardais, Joões-de-barro, bem-te-vis e sabiás compondo uma verdadeira sinfônica florestal.
         Otávio abrindo os braços saúda a orquestra, contemplando o azul celeste e olhando para o nascente, percebe os raios solares escalando os altos picos montanheses. Dirigindo ao banheiro, utilizando-se dos recursos modernos, dispõe a sua higiene pessoal.
         Retornando ao quarto, estende a cama e, abrindo o armário divaga em seu vestuário buscando um traje diferente; alegre e simpático. Queria se arrumar de forma saudável para chegar ao trabalho irradiando paz e alegria aos seus amigos e companheiros de trabalho.
       Optando, primeiramente, pela camiseta toma uma azul celeste homenageando ao céu antes contemplado. Pensou na vida. No azul da água e na eternidade do céu. Colocou-a sobre a cama e partindo em busca do complemento retira uma calça bege, estilo esporte jovial. Logo se preparou e contemplando, novamente, o novo dia coloca seus cabelos penteados, perfuma-se e aos adereços dirigi-se à mesa do café.
         Ainda tímido, diante de tanto gozo, senta-se para o ritual matinal. Toma uma xícara de café com leite adoçado ao adoçante, exigência que a natureza lhe havia imposto; amputara os açucares de seu organismo. Com uma metade de pão, sem manteiga, alimenta-se de forma sutil para engrenar-se à luta de mais um dia. Com um verdadeiro sorriso labial retorna aos seus aposentos. Conclui a sua higiene matinal, recolhe os materiais necessários para contemplar as tarefas previstas em sua agenda e, parte.
         Saindo, ainda ao portão, olha para mangueira e percebe-se que o festival ainda não cessou. Intercalando cantos, a passarada encanta a natureza dando sentindo pleno à vida. Por um instante, Otávio percebe que a natureza elenca uma incomensurável manifestação da vida; canta, louva, saúda e desfruta os delírios de viver. Reiniciando a história da humanidade, os pássaros ensinam o amor sem fronteiras doado no show da manhã.
       Vai para o trabalho irradiando em seu olhar já o brilho dos raios do sol que atravessam por entre os galhos das árvores.
         Ao chegar encontra-se com Mateus; um amigo fiel e companheiro das primeiras e, principalmente, das últimas horas. Com um “Bom dia!” saúda o velho amigo. Abraçando-o lhe deseja, em seu sorriso, que aquele dia seja repleto de conquistas. Mateus se alegra e fica absorto por tanto gozo. Ele sabia bem das coisas de Otávio. Recordava, em seus pensamentos, que no dia anterior o encontrara melancólico com as peripécias da vida.
         Tudo bem. O importante era ver o seu amigo feliz com a vida. De repente, vem Ivone com um sorriso meigo e verdadeiro, os cumprimenta. Abraçando e beijando-os, com uma acolhida, além de feminina, cheia de garra, transmite aos amigos uma energia de quem já venceu inúmeras lutas na vida.
         Seu jeito era especial. Era uma mulher que “impunha” um toque todo peculiar. Com rosto sereno e os óculos que auxiliavam, via as coisas positivas da vida. Suas palavras eram doces. Mas, no oculto da doçura marcas de difíceis lutas que o tempo a desafiara, contudo, vencidas.
     Mateus olhava para Otávio e contagiados pelo sorriso de Ivone perceberam, imediatamente, que ela corroborava o clímax daquela manhã. Ivone pega um copo com água. Vai saindo suavemente pelos corredores e cumprimento a todos que passavam por ela. Sabia cativar as pessoas com o seu jeito simples e sincero de sorrir.
         Aquele dia as coisas tornaram diferentes. Uma responsabilidade; a amizade. O seu sorriso era tocado pelos ventos que a miríades deitaram os trigais, que uma jovem raposa chorou saudades de um amigo: o pequeno príncipe, ao recordar a cor de seus cabelos.
         Nossa amizade estava sendo ancorada pelo sorriso.  O tamanho de nossas conquistas é medido pelo tamanho de nossas convicções. Ivone é mulher convicta da vida. Luta com ideologia. Tem no coração a certeza de que os amigos são as maiores conquistas da vida. Nada tem mais importância do que ser amigo. Poder confiar, abrir o coração diante das dificuldades e celebrar com alegria as vitórias.
         Reportando a inesquecível obra de Saint-Exupéry, somos eternamente responsáveis em conservar, sempre vivo o sorriso daquelas pessoas que souberam nos cativar.
         A vida presente em cada um de nós, talvez possa ser compreendida com muito mais valor se um dia tivermos a possibilidade de sermos cativados pelo sorriso de Ivone.


   (Conto publicado in. Modernos Contos Brasileiros 4. In: Aníbal Albuquerque. (Org.). Modernos Contos Brasileiros 4. 1ed. Varginha: Editora Alba, 2005, v. 4, p. 27-29.)


Cristiano José de Oliveira
30/03/2004

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